Um dos grandes problemas ao escrever uma boa história está no desenvolvimento de personagens que sejam humanizados e críveis. Personagens femininas costumam sofrer disso mais do que os personagens masculinos, e isso costuma desbalancear a história de um jeito absurdo.

Há uma grande chance de mulheres, dependendo da história, serem fragilizadas como forma de dar suporte a um roteiro fraco ou, pior ainda, serem masculinizadas para aparentarem força. Esse, contudo, não é o caso da Korra, ela é uma mulher e, eu poderia até dizer, uma mulher de verdade.
Mas antes, farei aqui um pequeno relato.

Eu tive uma paixão à primeira vista com Avatar: A Lenda de Aang. Era uma história com características orientais, mas produzida pela Nick. Tinha uma mitologia elaborada e bem abordada, cenas de luta excelentes que davam bastante material para minhas brincadeiras depois de ver os episódios, e além de tudo isso um humor excepcional. O Aang era um personagem complexo e interessante: apesar de sua sempre aparente felicidade, a gente passa a entender que aquilo era o modo como ele disfarçava o peso da responsabilidade por ser o Avatar e ter que lidar com todo aquele problema causado pela Nação do Fogo, a versão elemental dos Nazistas. O Aang tinha uma relação profunda com seus amigos, e a relação dele com a Katara se desenvolve de forma muito harmônica e natural, dá pra entender os sentimentos que desenvolvem. Até o Sokka, que pra mim é o melhor personagem do grupo, tem seus momentos dramáticos bem trabalhados, se você rever a série.

Eu vi as três temporadas de Avatar: A Lenda de Aang em poucos dias e parei por aí. Eu não quis ver Avatar: A Lenda de Korra. Veja bem, a série já estava bem avançada na Nick e as críticas eram boas, as pessoas comentavam, um sucesso, mas os poucos minutos que gastei vendo episódios dispersos na TV foram mais para gastar o tempo de sobra do que pela curiosidade. Eu não queria ver. Korra, afinal, era uma mulher, e eu sabia como personagens femininas tendiam a cair nos mesmos padrões e clichês infelizes de sempre. Além disso haviam as máquinas de guerra, coisa que naquele mundo quase medieval do Aang, ainda não tinha (o que é outra mentira, a série acompanha o avançar tecnológico pressionado pela guerra, outra coisa foda que os produtores arranjaram).

Pulando alguns meses de procrastinação e mudando de ideia, eu vi Avatar: A Lenda de Korra.

MEU SENHOR AANG, QUE HISTÓRIA! QUE MULHER! QUE TUDO!

Pareço a Narcisa, aquela socialite lá. Mas é porque realmente fiquei impressionado com a história. Vamos a uma aula sobre como construir personagens.

A Korra, apesar de ser forte em artes marciais, não tem paciência para a parte mística do Avatar, por isso ela sofre pra aprender a dominação do vento, que exige um jeitinho mais suave de ser. Ela briga, é ousada, desobediente e teimosa, mas também é leal e corajosa quando precisa. O vilão lá, o carinha da máscara que tira a dominação dos outros, esse cara é um pesadelo pra ela, ela tem medo e esse medo vira raiva. A Korra tem sentimentos amorosos e amigáveis por parte de um dos outros dominadores amigos dela. Sinceramente aquele cara é meio sem sal, vou te dizer, mas deixa ela, o que um rostinho bonito não faz na cabeça de quem ficou no frio desgraçado por anos sendo treinado para ser o mantenedor, a mantenedora nesse caso, da paz no mundo? Perfeitamente compreensível o comportamento, mas poderia ser algo que toma conta do roteiro, coisa que não ocorre, é só uma das muitas histórias paralelas que correm em Avatar: A Lenda de Korra e nos fazem pensar o que a dedicação não traz para as histórias.

É preciso aqui também citar que esse plot é repleto de comentários sobre minorias, sobre ódio, sobre doutrinação e a fé inquestionável em líderes carismáticos. A construção em camadas das mensagens é muito bem feita, parabéns aos envolvidos.

Meu maior problema com a série são os personagens secundários. Ao contrário de Avatar: A Lenda de Aang, aqui é tudo muito preto-no-branco e muita Korra e o cara de máscara que é o vilão. O dominador-galã é bem sem sal e lembra quase nada a Katara, que é o maior paralelo entre o trio de protagonistas. O gordinho legal irmão dele não tem o timing do Sokka e chega a ser chato de tão insistente (ele também é meio triste às vezes pela vida que tem, mas isso já é coisa minha de implicância mesmo). A filha da Toff não é cega mas é uma mula considerável pra ser a chefe de polícia; a outra mina boladona que aparece não agrada; o pet da Korra nunca será um Appa; os filhos do Aang são legais mas tem pouco espaço para se desenvolverem. No início, o filho principal lá parece muito chato, um professor que se esforça pra ser legal quando não é. A gente acaba percebendo que isso é muito por conta da visão da Korra, que muda pra cidade grande, se vê limitada e põe a culpa nele por isso (o que acaba sendo um erro dela e nosso ao acompanhar isso). Assim, isso não torna a série pior, mas a primeira temporada, que é a que eu vi até agora, dá pouco espaço para esses personagens se desenvolverem.

De maneira geral, apesar de minhas considerações, a série tem um ritmo bom e eu quero ver as próximas temporadas pra saber o que mais rola. O último episódio é de cair o cu das calças, perdão pelo palavreado novamente, e tem uma cena de ação muito boa no final. Além disso, mano, a história dos irmãos e o modo como encerra, que sensacional, é uma conclusão pra ninguém botar defeito naquele arco.

Voltando à Korra (embora eu não acredite precisar esclarecer mais nada).

Avatar: A Lenda de Korra é um exemplo em histórias com protagonistas femininas que, para mim, põe essas modas aí do momento como Jogos Vorazes e a série Detergente lá no chinelo, desses rasteiros e bem gastos com um prego neles. A Korra é uma adolescente especial, escolhida pelo destino e toda essa lengalenga mais, mas ela tem uma vivacidade e uma expressividade tão fortes que a gente é capaz de esquecer tudo isso, toda essa história sobre a escolhida, e só acompanhar ela até a final do campeonato da batalha de dominações.

 

Por João Scaldini