Quem vive no seu mundo criado? Quem são as pessoas orbitando o personagem principal? E por que importa tanto que eles sejam igualmente tridimensionais? Outra lição de Shakespeare, outra lição de Sandman – e o Neil Gaiman mesmo é muito fã do dramaturgo.

A importância do personagem secundário em Sandman

A obra de Neil Gaiman não seria nada sem seus personagens secundários. Isso porque, mesmo com um conceito em forma de gente, o próprio Morfeus, não dá para criar uma história sobre a personificação dos sonhos sem falar sobre os sonhadores. E isso Sandman faz aos montes.

São inúmeras capítulos que atuam como spin-offs e trabalham o Sonhar, o Sonho e seus irmãos. Essa imersão transforma a leitura em outra experiência.

Longe de fazer da história uma narrativa arrastada e desinteressante por focar em outros núcleos, os personagens secundários tornam-se principais em determinadas sagas e cativam, muitas vezes, mais do que o próprio Sandman.

Eu escrevi em um outro artigo sobre a importância do mundo de Sandman para a narrativa, então eu focarei em outro aspecto aqui: o espelho que se cria entre os personagens secundários e Morfeus.

Como o Sonhar é um espaço onde todas as criaturas habitam e é um lado B da realidade, Morfeus encarna os dilemas que se estabelecem e, até certo ponto, influencia no que acontece mesmo que indiretamente.

Na primeira saga dos quadrinhos, quando o personagem é capturado por um grupo de cultistas, acaba criando distúrbios que se propagam na Terra. As pessoas passam a nunca conseguir dormir, ou dormem por décadas.

O período em que é capturado, 1916 a 1970, não é acidental. Depois das duas guerras mundiais e do surgimento de um mundo bipolarizado politicamente, era dito que as pessoas não podiam sonhar.

O que Shakespeare ensina sobre personagens secundários

Você pode tomar como regra: todo personagem de Shakespeare demonstra, ao menos, uma emoção.

E por que isso é importante? Porque os personagens passam a ser vivos, eles agem e interagem com o mundo, ainda que tenham apenas uma cena. Isso faz com que todo o espetáculo absorva o observador e gere estímulos que sobreponham o mundo real.

As pessoas só se importam quando se conectam, se identificam, isso é uma verdade absoluta na escrita.

Quando seus personagens demonstram emoções, o leitor se relaciona com eles, e isso cria uma empatia ainda maior pelo mundo. A sensação de tridimensionalidade, de profundidade, evita aquela impressão de que são todos descartáveis, quase fantoches.

O grande problema do personagem secundário é, na maioria das vezes, cair na obviedade e se transformar em um manequim. Ao dar ao seu personagem uma emoção, um desejo, uma opinião, você cria uma camada a mais. E quanto mais camadas sua história oferecer, mais sólida ela será.

Se você vai apresentar um personagem apenas para um diálogo expositivo, faça isso de maneira que soe natural, dê voz às preocupações dele.

O paradoxo dos personagens secundários

Esse é um problema comum, inclusive para mim.

Eu gosto bastante de histórias em que o personagem principal é neutro, e ao seu redor concentram-se sujeitos distintos e especiais.

Dito isso, saiba que, muitas vezes, eu queria que meus personagens secundários tivessem mais espaço. Em meu primeiro livro A Pergunta no Espelho, acabei usando três capítulos extras para contar a história de três personagens secundários, mas tudo isso cabia dentro do enredo, como falei em outro artigo.

É importante reforçar que nada na sua narrativa deve ser gratuito, nem mesmo os personagens secundários, eles precisam estar ali para oferecer um contraponto ao protagonista, e também um complemento.

E se você acha que seu personagem principal não está interessante o suficiente, e acaba sendo mais maçante que todo o resto na sua narrativa, está na hora de rever a construção dele.

Porque não importa o quanto você goste de um personagem secundário, se ele está te chamando mais atenção do que o protagonista, é bem provável que o leitor tenha a mesma opinião.

E se o foco for desviado da sua narrativa principal, as chances das pessoas não entenderem ou não se importarem com seu livro são maiores.

Para mais algumas dicas sobre como escrever um livro, acesse meu artigo sobre protagonistas.

Boa escrita e até a próxima.

Deixe nos comentários se falta alguma dica, se concorda ou se discorda desse material 🙂