É preciso falar sobre sua história sem falar sobre sua história por 700 páginas. Como usar subtramas para explorar os mesmos temas e ampliar a discussão sobre sua narrativa. Para escrever um bom livro, conhecer e aplicar sub-tramas é fundamental.

O essencial da sub-trama

A primeira coisa que deve saber é que toda subtrama deve estar, de alguma forma, ligada à trama principal. Lessons from the Screenplay já deu essa dica, e eu já citei a importância de adicionar complementos narrativos no artigo sobre enredos.

Podemos considerar essa a parte 2 do artigo sobre enredos. Na verdade, essa pode ser uma sub-trama do artigo sobre enredos.

Isso porque enquanto o primeiro artigo abordava um elemento essencial para a construção de uma narrativa, este artigo aborda um complemento.

E é exatamente assim que as sub-tramas se relacionam com os enredos. Boom! Metalinguagem aqui para você.

Regras básicas da sub-trama

Aqui vão algumas dicas minhas baseadas na experiência e alguns lugares comuns da escrita.

Vamos à lista:

  • Uma sub-trama não pode ocupar mais do que 15% do total da narrativa. Mais do que isso e você começa a perder a atenção do seu leitor sobre o que é importante;
  • Uma sub-trama não necessariamente acontece nas páginas. Isso parece confuso, mas é simples, você não precisa descrever a aventura de um personagem secundário no supermercado toda vez que ele for lá, mas essa aventura pode ser contada em diálogos quando ele se encontrar com o principal. A sub-trama acontece “por trás das páginas” e só desponta quando for necessário à narrativa (o protagonista vai junto do amigo ao mercado e não compra o que precisa porque ele vinha discutindo com os caixas);
  • Uma sub-trama deve falar sobre o mesmo tema que o enredo principal, mas de outra perspectiva. Se sua história é sobre ego, e ao seu personagem principal falta qualquer amor próprio, uma sub-trama pode ser sobre quem tem muito, e outra pode ser sobre um sujeito que tomou um golpe forte no ego.

Com essas três dicas, dá para entender a base de uma sub-trama, mas qual é a utilidade dela para uma história? Mais uma vez, eu volto ao Neil Gaiman.

A sub-trama em Deuses Americanos

Deuses Americanos é uma história que por si só é uma loucura, cheia de detalhes, diferentes versões do livro e vários spin-offs.

Mas a parte onde vou puxar o saco do Neil Gaiman dessa vez é na história da cidadezinha onde o Shadow fica escondido por uns tempos.

Nessa cidade, ele descobre que somem crianças todos os anos, durante o inverno. E o inverno ali é bem forte, mas a cidade é bacana, e não sofre com altos índices de desemprego, violência ou problemas nesse sentido.

Dito isso, nosso amigo Shadow começa a desconfiar que nesse mato tem coelho, e em dado momento sai para investigar.

Não darei detalhes mais, porque parte das pessoas lendo esse texto pode achar que spoilers são um grande problema, mas vou concluir com um pensamento aqui sobre a sub-trama da história.

Deuses Americanos é uma narrativa sobre velhos mitos e tradições sendo substituídos por novos mitos e tradições, novos hábitos e comportamentos. Há uma alteração na cultura norte-americana como um todo, através do progresso e dos inúmeros imigrantes habitando o país.

A identidade nacional que esses imigrantes carregavam, e que seus deuses carregam, consequentemente, vem sendo apagada pelo progresso, pelos novos dias.

Os velhos deuses se vêem decadentes e lutando para sobreviver em mundo indiferente a eles, e essas entidades fazem de tudo para sobreviver. No fim, a disputa pela relevância e pelo poder se mostra inútil, pois as mudanças são inevitáveis e, embora a fé seja constante, os deuses mudam.

Na sub-trama, vemos esse argumento sendo explorado por outro lado: sacrifícios são feitos pelo bem, mas até que ponto eles são justificados? Os velhos deuses agem em prol do benefício de todos, ou fingem isso para seu próprio bem-estar?

Eu quero saber a resposta nos comentários desse artigo.

Boa escrita e até a próxima.