Ser engraçado na literatura é ser inteligente. Piadas de tiozão não passarão. Conheça mais sobre o Douglas Adams e como ele revolucionou a ficção científica com o humor. Saiba um pouco mais sobre como escrever um livro de comédia.

O que é graça?

Essa é uma questão extremamente subjetiva, mas válida na mesma proporção. Definir humor é diferente de definir o que é engraçado.

Isso porque a percepção da graça se difere culturalmente pelas referências e pela construção dos elementos em cima dessas referências. É por isso que ingleses são tidos como mestres do humor “inteligente”, alemães não têm senso de humor e estadunidenses fazem piadas idiotas, na concepção média.

Não que esses preceitos sejam verdadeiros, mas eles revelam algo sobre como percebemos o humor em outros lugares, como percebemos suas culturas.

A Inglaterra é tida como expoente intelectual, especialmente pelo seu papel imperialista influenciando essa visão nas colônias.

Os EUA são tidos como um país rico, mas culturalmente desfavorecido por uma cultura de massas plástica e descartável decorrente de inúmeros fatores, entre eles o conservadorismo extremo na educação de base.

Os alemães, bem, o século XX não foi o momento mais engraçado para eles, ou o resto do mundo.

Culturalmente, a graça varia. E o humor?

O que é humor?

No contexto da comédia, é o ato de fazer rir. Mas o que faz rir? E é necessário ser engraçado para ser humor?

De acordo com Aristóteles, a comédia era o ato de utilizar das fraquezas humanas como forma de criar um paralelo, extrapolando a realidade e revelando nossas falhas de uma maneira que estivesse além. Os erros eram engraçados.

Atualmente, existem várias versões sobre o que faz rir uma pessoa, mas eu gosto da abordagem de que o humor nasce da quebra de expectativas.

O que isso quer dizer? Que a graça é justamente quando algo começa de uma forma e termina de outra, seja essa outra forma desconexa, absurda ou só diferente das expectativas do ouvinte/leitor/público.

É um tanto por isso que a percepção individual de humor varia, pois as referências pessoais que criam as expectativas em cima do discurso são distintas entre si. E é papel de quem faz comédia, seja ela na literatura, no stand up ou de outra forma qualquer, encontrar uma maneira universal de fazer rir.

Ainda seguindo essa teoria, é muito por isso que filmes com comédia física, como os do Charles Chaplin, Jerry Lewis e Jim Carrey, são praticamente universais. Eles apelam para um sentimento extremamente visual de humor, e todos os três fazem isso de maneira incrível.

Bônus: o Rowand Atkinson tem uma série para a BBC sobre o que faz a comédia – você pode conferir alguns trechos aqui.

Como escrever comédia na literatura?

Não dá para viver de piadas em um livro, se o que você quer é fazer o leitor rir. E boas comédias na literatura fazem rir sem precisar contar uma piada. Os dois livros que usarei como referência mais abaixo, O Guia do Mochileiro das Galáxias e Belas Maldições, me fizeram rir alto sem precisar disso.

Mas como?

Tem um excelente vídeo do Nerdwritter sobre como o Louis C.K, que os céus tenham sua carreira e seu bom senso (que já morreu faz tempo), conta uma piada.

Basicamente, ele pega uma situação e extrapola ela, levando ao absurdo, esticando e empurrando até um limite em que aquilo sai do que é aceitável, do que é normal, ao que é engraçado porque não esperávamos.

O David Chapelle faz isso bastante em seus stand ups também. Suas histórias se esticam por minutos e minutos enquanto ele cria situações cada vez mais exageradas, que nos fazem rir.

Antes dele, Richard Pryor. No especial que, até essa data de publicação, está na Netflix, uma das piadas mais engraçadas é sobre como Richard descobre que seu macaco de estimação morreu e conversa com um cachorro.

Vamos aos exemplos

No livro Belas Maldições, o primeiro capítulo, escrito por Neil Gaiman, fala-se sobre como o nascimento do Anticristo é repleto de desencontros, e uma troca de bebês que deveria ser relativamente simples acaba se tornando uma confusão generalizada onde o Causador do Apocalipse é deixado com uma família comum e outra criança é tomada como o Portador do Fim do Mundo.

A minha descrição em si é terrível, por isso eu recomendo que leia o capítulo (ou veja a série que logo vai sair, comandada pelo próprio Gaiman, de quem já falei aqui várias vezes).

Outro exemplo?

O Guia do Mochileiro das Galáxias é, para mim, uma das obras mais importantes da ficção científica do século passado. E eu sei que isso pode soar um pouco exagerado, mas a verdade é que Douglas Adams foi capaz de levar uma nova abordagem a um tema que, naquele período, estava já um tanto saturado.

Veja bem, o primeiro período de produção de ficção científica, historicamente está relacionado à virada do século XIX para o século XX, onde a humanidade encarava a ciência como o progresso e o progresso como inevitável. As primeiras histórias eram utópicas, falavam de um futuro glorioso que deveríamos proteger.

Mas as coisas deram erradas e os alemães perderam seu senso de humor nas duas guerras mundiais.

Depois disso, e com a situação se mostrando cada vez mais desesperançosa, as histórias de ficção científica tomaram um tom catastrófico. Passaram-se a contar distopias. O futuro deveria ser evitado a qualquer custo.

Quando Adams pega para avaliar a situação, ele reconfigura as críticas das distopias em um modelo onde o humor é peça central para a construção de um discurso, seja ele qual for.

Das críticas à burocracia através dos Vogons, criaturas horrendas, cruéis, lentas e sem senso para a arte que tratam de arruinar tudo no universo com sua falta estética e diversão à questão de quem controla a galáxia, qual a resposta para a vida, o Universo e tudo mais, e qual a última mensagem de Deus para a humanidade.

Tudo é tratado por Douglas de uma maneira incrível, e transforma uma narrativa de aventura espacial em absurdos como cair ser simplesmente errar o chão, uma festa que dura para sempre, fábricas de planetas e ratos serem a espécie mais inteligente da Terra, em algo fundamentalmente engraçado.

A melhor dica que posso deixar nesse texto talvez seja, não conte piadas, conte histórias que, de tão absurdas, são engraçadas.