Talvez esteja uma porcaria e você precise refazê-lo, mas algumas partes são reaproveitáveis. Como eu reescrevi o primeiro capítulo de uma história ainda não publicada mais de 5 vezes até encontrar a narrativa certa e como fazer alterações significantes sem destruir todo o seu tempo investido.

Reescrita é revisão?

Não. Na revisão, você lapida o material que já está escrito buscando aprimorar o sentido das palavras já postas. Muda-se uma coisa ou outra, mas o material como um todo permanece.

A reescrita vai um passo além, e acontece quando se percebe que o material diante de si não atende às expectativas e foge muito ao que se planejou para a história.

A reescrita pode vir durante o processo de revisão ou pode surgir antes ainda, durante o próprio momento criativo.

É mais fácil trabalhar com exemplos:

Imagine o seguinte, está desenvolvendo uma história onde o protagonista, em dado momento, sai de carro fugindo de casa, desesperado.

Se sentindo perseguido, ele corre pelas estradas como um louco, querendo ir o mais longe possível.

Nessa fuga, durante a noite, acaba atropelando uma pessoa, quase propositalmente, e segue sem parar o carro.

… e é nesse momento que você percebe que a história fugiu completamente ao que queria. O que era pra ser um drama pessoal sobre um homem em negação se transformou numa história policial onde um homem fugindo mata uma pessoa.

O capítulo não dialoga com o ponto principal da história, e precisa ser excluído da narrativa. Contudo, não quer perder muitas das frases e ideias que teve, então aproveita o esqueleto da coisa e recicla, escrevendo um novo capítulo onde, ao invés de fugir pela estrada, ele vai até um bar, do outro lado da cidade, e fica lá por alguns dias.

Esse foi um exemplo um tanto tosco, então vou usar outro para ilustrar.

Como eu reescrevi o primeiro capítulo da minha história 5 vezes

Isso ocorreu em um livro que ainda não saiu, mas foi muito necessário.

Quando havia começado aquela narrativa, aquele épico sobre um sujeito em busca de compreensão sobre si, diante do mundo fantástico criado, minhas referências e inspirações ainda estavam à flor da pele, o que resultou em um material plagiado de diferentes autores.

O primeiro capítulo era insatisfatório e pobre. Pior, não representava a minha identidade, mas uma pluralidade de ideias tiradas de outras páginas, de outros autores.

Assim, reescrevi a primeira vez, buscando algo mais original.

Não foi suficiente, e a segunda versão ainda era parecida demais com a primeira, parecida demais com minhas referências.

Nisso, reescrevi uma terceira vez, e tive uma ideia que parecia excelente. O capítulo ficou ali, enquanto focava no resto da história. Mas conforme eu escrevia e me desenvolvia, quando voltei para ler e analisar, senti que a escrita daquele começo já não era mais a mesma do final.

Então, mais uma vez, reescrevi. Senti que a quarta seria a última. Estava mais original, tinha melhores ideias, era melhor aplicado, e a história recomeçou enquanto eu seguia com os outros capítulos, no mesmo ritmo.

Foi aí que terminei a primeira parte. 300 páginas. Determinado, comecei a reler, fazendo a primeira revisão.

E vi outra vez o quão confuso e corrido era o primeiro capítulo. Não mexi em nada, num primeiro momento. Reli todas as 300 páginas e, depois, quando voltei à página 1, recomecei.

Assim, escrevi a quinta versão, já a final. Essa deve permanecer de fato. Muitos acontecimentos, diálogos e frases já não existem mais, mas parte da ideia inicial permanece, aquele primeiro sentimento ainda está ali, só foi necessário me reinventar para poder trazê-la à tona como merecia.

Reescrever é importante, e pode ajudar a desfazer um bloqueio criativo ou dar outro tom à sua história.

No artigo sobre capítulos, falo sobre um pedaço dessa mesma história que citei, um enorme capítulo de 40 páginas, um conto em si, que era uma confusão sem fim. Várias decisões não faziam sentido e inúmeros aspectos da narrativa permaneciam muito escusos.

Foi necessário dividir essa parte da narrativa em dois e reescrever muitos acontecimentos da segunda metade, tornando tudo mais lógico e aumentando a dramaticidade.

Com isso, consegui capítulos muito melhores e uma narrativa bem mais madura. Se eu não abrisse mão daquilo que estava escrito, não teria encontrado essa outra versão.

Boa reescrita e até a próxima.