“Oh! Dor insistente e lancinante!
Infinita queimação que tudo corrói
Que vísceras e esôfago destrói
Com terrível fogo ardente!

Dispepsia maldita que me consome!
Azia incrível que me leva ao surto!
De que profundas neuroses serão fruto?
Crias de que fantasmas sem nome?

Com o peito ácido, me lamento num furor abrupto:
“Ah! Meus males! Filhos de estranho culto
Da dor, da culpa, do passado e do insulto!

Ai de mim! Sou escarro de um Deus mau e cego!
Tropeço do Pai Eterno, esse grande pândego!
Ai de mim! Pai infernal, me arrebente o estômago!”

Uma queimação maldita me dilacerava as entranhas. O ácido subia até a garganta e parecia estacionar por um segundo até retornar ardente para o estômago castigado. A escuridão que tinha diante de mim engolia tudo qual líquido espesso e opaco, tornando impossível distinguir qualquer coisa que fosse através da vista. Porém eu, que não enxergava nada, senti-me tonto ao levantar o tronco e apoiar-me nos cotovelos, buscando em vão aliviar com a nova posição os impossíveis desconfortos causados pela azia. Não fazia ideia de que horas eram, se alta madrugada, início de noite ou iminência do nascer do dia. Meu corpo estava coberto por um suor pegajoso, quase como sangue coagulado, o calor sufocante só piorando a sensação de estar sendo consumido de dentro para fora por um rio de lava que subia e descia insistentemente. Tateei, sem sucesso, a parede em busca do interruptor para acionar o ventilador e acender a luz.

“Ou! Psiu! – uma voz masculina e suave chamou bem à minha frente.”

Estaquei por um instante, tão somente para recomeçar a tatear a parede desesperadamente em busca do interruptor.

“Ei!”, insistiu.

Desisti da primeira empreitada. Me levantei apressada e desajeitadamente, tropeçando para fora da cama, prestes a irromper correndo pelo corredor da casa.

“Espera!”

Desabei numa curta carreira abruptamente interrompida pela porta fechada. Bati o corpo desprotegido com força na inesperada barreira e caí para trás, zonzo, completamente perdido, a boca inundada pelo azedo colossal do ácido estomacal, as ideias sendo corroídas pelo refluxo e pelo pavor.

“Relaxa cara. Senta aí.”

Permaneci deitado, as costas coladas ao piso de madeira gelado, o coração martelando por trás das costelas, a cabeça latejando, o suor escorrendo por todos os poros. Após um bom minuto, respondi, cheio de hesitação:

“O que… O que foi? Quem tá falando?”

“Sou só eu, fica tranquilo…”

“Só você?”

“Sim, só eu. A galera tá toda lá fora mas ninguém mais quis entrar.”

“Quem tá lá fora?”, perguntei, espantado.

“Ué, os outros! Quem mais poderia ter vindo? Estão todos lá.”

Respirei fundo, ainda agitado mas incapaz de me mover para tentar escapar novamente. Correram alguns segundos no mais profundo silêncio, até que alguém começou a mexer nos objetos que estavam em cima da escrivaninha ao lado da cama. A voz tornou a falar-me num tom amigável e simpático que só então fui dar-me conta.

“Mas, me diz… Como estão as coisas? Você?”

Mantive-me calado.

“Ah! Para! Você sabe bem que pode falar comigo, não sabe? Vamos! E aquela tristeza toda, como anda?”

“Anda tudo na mesma…”, respondi em voz baixa para mim mesmo.

“O que? Não entendi. Fale mais alto, por favor!”

“Anda tudo na mesma!”, gritei, o medo cedendo o lugar para a irritação.

“Como ‘tudo na mesma’? Já vão fazer anos… o tempo passa, meu querido.”

“O que vão fazer anos?”, perguntei, curioso e aterrorizado.

“Não importa. O tempo passa, é o que importa quando nada mais importa. ‘Tudo na mesma’… essa é boa… como se hoje fosse ontem…”

“Ele passa”, falei em voz baixa novamente, “para todo mundo menos para mim…”

“O quê? Fale mais alto, já pedi! Todo mundo está lá fora querendo ouvir e esperando para falar!”

“Falar?”

“Falar.”

“Falar o quê?”

“Você sabe…”

“Não sei.”

“Não interessa. Quem virá amanhã?”

“Amanhã?”

A curiosidade e o terror se misturavam em meu espírito e tornavam-se indistinguíveis como se se fundissem numa massa homogênea como a noite e ácida e perversa como o ácido que me destruía as vísceras.

“Amanhã”, ele respondeu após certa demora.

“Acho que ninguém…”

“Você também, hein! Ninguém? Ninguém mesmo?”

“Sim”, confirmei, sentindo estranho pesar.

“Você ficou para trás.”

“Acho que sim…”, meus olhos embotaram de lágrimas.

“Ou quem sabe você passou na frente de todo mundo… e não esperou ninguém… e ficou para trás…”, a voz disse, pensativa.

A sensação de solidão rasgou-me o peito e as idéias, a melancolia evocada pelo distanciamento da vida e das coisas e do mundo e de mim mesmo fez-se presente. Como durante o dia, todos os dias.

“Estou sozinho”, admiti pela primeira vez.

“Nã, nã! Pera lá! Sozinho não! Eu estou aqui!”

“E quem é você, por acaso?”

Ele riu histericamente no seio da escuridão profunda.

“Como se fosse eu quem tivesse que responder! Quem é você, meu querido?”

Assustado, me levantei aos poucos até ficar de pé, sem responder à questão de meu interlocutor. Tateei a parede tentando acender a luz.

“Não acenda, por favor… espere um pouco!”

Hesitei, mas busquei ainda mais uma vez. Levei um tapa no braço.

“Não acenda!”, gritou encolerizado.

Desisti, me sentei na cama sentindo uma louca vertigem, o refluxo intensificou-se.

“Quem é você, meu querido?”, ele perguntou mais calmo, com uma leve ironia.

“Pare com isso”, resmunguei.

“Para você! Não seja besta. Quem é você?”

“Sou quem sou!”, respondi impaciente, me cansando do jogo proposto pelo fantasma.

“E nada mais?”

“Você deve saber!”

“Oh! Eu sei muito bem, meu caro. Mas… e você? Sabe?”

“Claro que sei!”, exclamei.

“Então me diga!”

“Sou isso daqui, beleza? Sou o que posso ser! Sou esse na sua frente, que você sabe quem é! Sozinho!”

“Bobagens! Me diz logo aquilo que você sabe que deve dizer!”

“Mas eu já disse!”

“Diga mais!”

“Não tenho nada para falar!”

“Perfeito!”

“Mas…”, pensei atormentado, dizendo aquilo que pensava enquanto pensava, “eu queria dizer mais…”

“Mais? Mais do que nada?”

“E… Não tem nada…”

“Voilà! Eis você!”

“Eis eu…”

“Eis tudo! Posso ver no fundo dos seus olhos sem fundo!”

“O quê?”

“Tudo!”

“Tudo o quê?”

“Nada!”

“O quê?”

“Nada!”

Me deitei de costas na cama, o rosto dolorido, o nariz parecia sangrar, a azia ainda presente.

“Sabe…  você me cansa”, ele disse.

“Por quê?”, perguntei desinteressado.

“Não sei bem… alguma coisa… você tem pena de si mesmo e se acha melhor por isso, sem saber que deveria ter mais pena ainda porque pensa assim.”

“Não confessei. Mas vos confesso.”

“Ninguém nunca virá. Você sabe disso, né?”

“Sei.”

“Bom… nada virá, você sabe, né?”

“Acho que sim.”

“Você me cansa.”

Me levantei num pulo e explorei a parede, ele tentou segurar meu braço, sua pele fria e seus dedos magros me tocando o antebraço e fazendo uma força digna de um velho de oitenta anos. Empurrei-o e finalmente achei o interruptor. Ele riu com desgosto e disse:

“Fiat lux, meu querido. Eu estava certo e você mais ainda.”

Acendi a luz e não havia ninguém. O quarto estava vazio e a porta do corredor ainda fechada. A vaga suposição que passei a alimentar durante o estranho bate-papo se confirmou. Há quanto tempo os fantasmas não falavam! Da pequena janela quadrada coberta com um pano vermelho do lado oposto do quarto entrou uma brisa úmida e com cheiro de terra molhada. Chovia. O meu nariz não sangrava. Ouvi algumas vozes do lado de fora, no corredor, atrás da porta, como cochichos tímidos e nervosos. Me lancei num pulo para frente e puxei a maçaneta com certa agilidade. Espiei pela fresta aberta. Tudo escuro no corredor, absolutamente ninguém. Fechei a porta novamente. A queimação aumentou e passou a beirar o intolerável, ultrapassando o dizível, derretendo o pensável. Deixei o corpo cair de costas, desesperançado de que qualquer posição pudesse me aliviar os sintomas de tamanho desconforto, dobrei o travesseiro e deitei sobre ele mantendo, ao menos, a cabeça um pouco mais elevada do que o abdome. Com o dedão do pé, apaguei a luz.

O tempo corria e o dia não vinha. Um milhão de horas se passaram entre diferentes posições, tormentos estomacais, suores desagradáveis e pensamentos confusos, até que, da noite dos tempos, uma voz feminina, melíflua, doce e sensual, chamou com uma simplicidade encantadora:

“Oi.”

“Ah! De novo não…”, suspirei.

“De novo o quê?”

“Nada, nada.”

“Não! Me fala, por favorzinho!”

“Você de novo!”

“Eu? Como assim?”

“Nada…”

“Então tá, né… Quem é você?”

“Por que, afinal de contas, eu não me dou descanso quando a noite tudo cala? Ignoro o que sei, não sei o que ignoro. Quem sou, que não posso dizer o que sou sem faltar com a verdade ou desencontrar as palavras?”

“Mas eu já disse quem sou!”, gritei, recomeçando a perder a paciência já perdida.

“Ouvi um choro manso, fininho.”

“Não grita comigo, seu grosso!”, ela reclamou com voz magoada.

“Não abri a boca, esperando que ela se fosse.”

“E então…”, ela sugeriu.

“O quê?”, perguntei, irado.

“O que você vai fazer?”

“O que você quer que eu faça? Eu só queria dormir um pouco!”

“Dormir? Logo agora que estou aqui, só eu e você, sozinhos, no escurinho.”

A escuridão pulsou. A voz foi se fazendo persuasora, escondendo e prometendo delícias secretas por trás das palavras num jogo de subentendidos já muito claros. Eu não soube o que dizer.

“Você deixa eu ir até aí?”

“Não! Fique longe, por favor!”

“Ahhh! Mas por quê? Eu gosto de ficar bem pertinho!”

Sua respiração soprou-me a nuca, um hálito mentolado difundiu-se refrescante pelo quarto, meus pêlos se arrepiaram, mas me afastei em direção à parede. Eu estava deitado de lado. Ela riu provocante.

“Deixa eu chegar pertinho, deixa!”

Me levantei e tentei acender a luz, mais uma vez sem sucesso, o interruptor desaparecera novamente. Ela segurou minha mão com delicadeza e passou-me o braço pelo pescoço, senti seu peito colar ao meu peito nu. Sussurrou-me ao ouvido, cheia de malícia:

“Deixa eu te chupar…”

“Repeli-a com delicadeza e fiquei de pé ao lado da cama.”

“Eu vou te chupar todinho…”

Colocou sua mão sobre minha cueca, única barreira que nos separava. Pulei novamente sobre a cama para escapar, me divertindo com a brincadeira e com a possibilidade de ceder.

“Você me cansa… não sou de insistir… é pegar ou largar…”

Sua voz era tão deliciosa que parecia revelar as curvas de um corpo voluptuoso por trás do som que emitia, um corpo aberto, louco de desejo, úmido, macio… Cedi.

“Então tá”, respondi dissimulando a vontade

“Mas…”

“Mas o quê?”, perguntei frustrado.

“Antes…”

“Sim…”

“Antes você vai ter que me dizer quem é você!”

“Mas, mas eu já disse!”

“Não para mim… se você puder repetir… aí vou ser todinha sua e você todinho meu.”

“Eu não posso dizer…”, falei, carregado de tristeza.

“Olha, se você me disser, eu te deixo me engolir, fazer o que quiser… E ainda venho amanhã…”

“Já tentei isso antes”, o desejo arrefeceu.

“Mais uma vezinha… o que você quiser!”

Ela me afagou a cabeça, me abraçou, senti seu cheiro de mulher, sua respiração calma e as batidas tranquilas do coração em seu peito de fantasma. A azia voltou a queimar. Uma vontade tremenda de desabafar me abalou os pilares já abalados da alma doente.

“Eu… eu…”, não pude dizer mais e comecei a chorar convulsivamente.

“Oh! Não chora! Não chora assim! Por que você está triste? Foi alguma coisa que eu disse? Alguma coisa que eu fiz?”

“Não”, funguei, “não… eu é que…  não sou nada, não tenho ninguém, tudo o que sou é essa azia, essa dor chata, essa vontade de ir embora, esse cansaço, essa mentira, essa bobagem… essa falta de palavras…”

“Falta de palavras não! Você disse, agora eu sou sua e você é meu e nós dois não somos de ninguém!”

Senti vontade de vomitar, uma leve náusea cutucava-me a garganta, a boca tremia e a língua experimentava um gosto metálico.

“Eu não te engano se não posso me enganar… não faça de besta… eu não falei o que precisava, eu nunca falo…”

“E alguém fala?”

“Eu não sou alguém, eu sou ninguém.”

Tomado por repentina repulsa, empurrei-a com força para longe de mim. Ela caiu no chão. Às pressas corri a mão pela parede e achei o interruptor. Esperei um segundo, como da outra vez.

“Eu sou sua… todinha, você pode me beijar toda, me morder, me usar até estragar, até cansar, até amanhã!”

“Amanhã ninguém vem… Amanhã não vem…”, respondi friamente, ébrio de minha sobriedade, e acendi a luz.

Um clarão branco devorou a escuridão negra e então diminuiu. Aos poucos as coisas ganharam contorno. Mas nada havia no quarto senão paredes brancas, uma porta fechada, uma janela tampada e… azia, muita azia. Não havia móvel algum, nem voz e nem mulher e nem… eu mesmo.

Amanheceu um dia ácido.

Por João Gabriel Paulsen