Um saque. Dois, não, três toques na bola. Chão. Um apito. Recomeça. Saque. Quatro toques na bola. Uma garota salta alto e corta. Bola no chão. Ponto. Apito. Recomeça. A tarde toda vendo jogos. Fumava um cigarro do canto do ginásio, onde era aberto e não me mandariam apagar. Estava de passagem na região vendendo colchões quando vi o jogo.

Umas garotas de universidade jogavam para algum campeonato sem nome. O importante era o shortinho, estavam dando alguma premiação nesse sentido. As bonitas eram sem habilidades, mas as feias compensavam e equilibravam o time. Umas de trança iam de um lado para o outro e seus cabelos balançavam. Eu imaginava o cheiro, um tanto doce pelo shampoo, um tanto salgado e azedo pelo suor. Só sentia o cheiro do cigarro, tentava não focar muito nisso, também.

A mais velha ali devia ter minha idade, por volta dos seus vinte e cinco anos, não mais que isso. Todas tinham uma aparência de zelo e bons cuidados. Cuidados maternos, eu diria. Apaguei o cigarro e fui ao banheiro mijar, me olhei no espelho. Aquele não era um rosto acusando cuidados maternos, acusavam na verdade cigarros velhos e dias na estrada em uma caminhonete poeirenta. Voltei para meu canto, longe das torcidas e famílias vendo o jogo. Estavam no intervalo. Observei os shorts. Queria uma bebida, mas estava em horário de trabalho, teoricamente.

Elas poderiam jogar de noite, eu pensei comigo, juro que pensei, e ainda pensei também em parar no bar mais próximo, um bar desses bacanas onde os universitários se juntam e comemoram. Ficaria em um banco no ponto mais movimentado, poderia me misturar, não era tão mais velho, eles não saberiam a diferença. “E de qual curso você é?” Eu tenho um jeito mal-cuidado, mas até sou charmoso pra todos esses quilômetros corridos. Ia puxar um assunto, a gente ia conversar um pouco, depois poderíamos correr pruns beijos. Gente, se eu mandasse bem, porque tem já um tempo e nem lembro como se beija direito, poderia levar ela num lugar bacana, num motel bom, já que tenho um dinheiro comigo, ou ia pra casa dela, república, sei lá. Aí a gente transava, e ia ser bom. Faz um puta tempo que não transo. A de bunda grande com a garrafa de água conversando com o namorado seria perfeita. Mas ela tem namorado, e isso é tudo ilusão minha, eu nunca vou fazer nada disso. Transar até devo, mas num puteiro barato voltando de viagem, quando meu pau não aguentar mais a minha mão. Fiquei frustrado e com uma ereção, acendi outro cigarro pra pensar noutra coisa, mas não tinha no que pensar vendo elas jogarem aquele vôlei aos trancos.

Pensei em como estaria numa faculdade se meus pais não tivessem morrido e tivesse que cuidar das minhas irmãs. Eu seria um excelente advogado. Tinha notas boas até, mas não deu. Larguei o cursinho e fui cuidar das duas. Hoje a segunda delas já tá quase formada e arranjando um emprego. Dezessete anos, eu fiz o melhor que pude, e ela já tá com dezessete anos. Uns caras provavelmente olham pra ela como eu olho pra outras mulheres, mas isso não é problema meu, é puro fetiche. É frustração, é cansaço de tanto rodar pra nunca achar porra nenhuma em outra cidade, em outra casa, em outra entrega.

O jogo recomeça. A bunduda, Deus a proteja, começa sacando e esqueço meus pais mortos, mas lembro da ereção. Os problemas estão em todos os lugares, mas na minha mão tem só um cigarro pra me ajudar a fingir que sou descolado demais pra pensar nessas coisas. Vinte e cinco anos, minha mãe já estava casada, meu pai tinha completado o curso de eletricista com essa idade, acabado de conhecer minha mãe, eles tinham cinco anos de diferença. Nunca gostaram de viajar, eu também não. Mas ficar nas mesmas ruas, trabalhando em uma lanchonete de frente pra outra maldita universidade, estava me matando.

Pelo menos nunca caí na bebida tão forte quanto um dos meus tios. O fígado falhou e ele tinha cinquenta anos. Também adorava ver garotas de shortinho, e falava sobre isso comigo e com meu pai quando minha tia não estava por perto. Um dia ela ouviu e o acertou com a frigideira nas costas, foi bem engraçado. Depois disso, acho que foi depois disso, ele falava bem baixo, quase sussurrando, e sempre olhava para trás. Deu um roxo bem grande, uma costela trincou, ele teve dor umas boas semanas antes de ir no médico e sarar.

Saque. Toque, toque, corte, salvo, passe, toque, toque, toque, corte. Chão. Apito. Saque. A bunduda se abaixa e a calcinha marca no tecido fino. Jesus Cristo. Eu fui embora fumando, nunca soube o placar. Entreguei o colchão naquela cidade, recebi o pagamento, dormi no carro para economizar na hospedagem. No dia seguinte, sem entregas por ali, parti para outro lugar. As estradas sinuosas me distraíam. Era o décimo dia de viagem, eu não aguentava mais, mas os colchões estavam acabando. De tanto entregá-los tinha birra de dormir, virava noites em bares e em locais que me permitissem manter os olhos abertos, com raiva dos malditos colchões de solteiro, de casal, de viúva, de viúvo, de padre, de cachorro, de periquito papagaio e a puta que pariu.

Eu queria ir pra faculdade, andar com aquelas bundudas de shortinho jogando vôlei, ser um cara legal, ter amigos, mas quando se trabalha e se viaja tanto, você nunca fica em lugar algum por tempo suficiente para se conectar com alguém. Só te resta a família, e minha família começa a se desfazer, como era planejado desde o início, com os dezoito anos da minha irmã mais nova. A outra já é casada, está grávida dum cara meio bobo que trabalha numa loja de eletrônicos, mas que pelo menos é um sujeito honesto, trata ela bem. Meu pai sempre me pediu para ficar de olho nos caras que minhas irmãs arranjavam, ele disse que elas não tinham bom gosto pra marmanjo, que poderiam arranjar vagabundo. Eu concordava na época, mas depois que ele e mamãe morreram, as duas sempre arranjaram uns sujeitinhos parecidos com meu pai, acho que era saudade. Eu nunca arranjei mulher igual minha mãe, mas mulher igual a ela não existia, aquele jeitão do interior, toda atenciosa, mas brava com todo mundo o tempo todo por não atender às expectativas. Além disso, mamãe era loira, e só meu pai gostava de mulheres loiras na família. Eu sempre preferi as morenas, meu tio de costela quebrada gostava de ruivas. A família tinha preferências diversas. O marido da minha irmã é careca, não sei o que a outra vai arranjar, talvez um cabelo pintado ou um japonês. Um japonês ia ser legal.

Pensei nisso o dia todo e cheguei em outra cidade. Um troço de quarenta mil habitantes sem nada de interessante. O puteiro era deprimente, broxei com o anúncio e decidi ir para um hotel tomar um banho decente. Fiquei no quarto até meia-noite varando entre canais de pornografia e fui para um bar, talvez tivesse sorte por ali. Não tive. Bebi sozinho e ainda perdi na sinuca para um velho meio cego e banguela.

Voltei para o hotel e não consegui dormir. Também não consegui fumar porque o velho levou meu isqueiro na aposta. Eu lembrei da bunduda mais uma vez, não fosse só tesão às três da manhã, acreditaria estar apaixonado, mas era três da manhã e minhas mãos estavam ocupadas. Nunca mais pensei nela. Formaríamos um bom casal. Não fosse a cicatriz do acidente, eu seria ainda mais charmoso, mas ela me fornece um certo mistério, adiciona um pouco de sofrimento ao meu rosto cansado. Talvez eu devesse trocar esse emprego e arranjar algo na minha cidade, ficar mais próximo das minhas irmãs mesmo que elas já não precisem de mim, acho que preciso delas, de alguém que cuide de mim. Não amadureci tão cedo, mas tive pouco tempo para pensar no meu bem-estar. Venho tossindo demais e acho que são os cigarros. Meu joelho dói se fico tempo demais em pé. Tenho hemorroida. É, eu tenho. Minha alimentação é uma merda e passo o dia todo sentado dirigindo ou descansando porque meu joelho dói. Acho que preciso de alguém que tome conta de mim por um tempo, não muito, só o suficiente para eu poder lidar com todos os meus problemas, de uma só vez, depois de tantos anos. Só precisaria de um mês. Vivo trocando de emprego e não tiro férias. E como não posso ficar parado porque preciso sustentar minha irmã, não descanso até achar outro e recomeçar o ciclo. Nunca estou satisfeito com meu trabalho, mas só as pessoas ricas podem estar satisfeitas em ganhar dinheiro quando não precisam tanto assim dele.

Dez mil no banco e uma morena bonita fazendo faculdade comigo, isso é tudo. Hoje eu tenho duzentos reais na conta e meu pau na minha mão. Parece uma longa jornada, mas depois que minha irmã fizer dezoito e estiver assentada, posso fazer isso. Talvez eu aproveite um mês de férias, talvez eu vá para um ginásio de faculdade ver mais garotas jogarem de short. Já que é pra sonhar, talvez eu entre em um curso e tire meu diploma. O sol nasceu quando eu pensava nisso. Levantei e fui atrás de café. Também comprei um isqueiro e fumei desesperado dois cigarros de palha. Não dois de uma vez, mas dois no tempo de um, tragando acelerado para desfazer a tensão de uma noite em claro. Do que adiantam os colchões quando as pessoas não dormem neles? Além disso, aquele era velho e desgastado, não quis. Já não gostava de colchões novos, os velhos eram piores. Fechei uma venda com o dono do hotel, meu patrão não me daria comissão alguma por aquilo, e ainda teria que voltar naquela cidade para entregar aquela merda.

Terminei minhas entregas naquele dia, logo pela noite. Chovia. Não quis arriscar a estrada e entrei nessas cidades sem nome que não decoro por serem inúteis. Em uma situação excepcional, paguei outro hotel. Fazia um frio desgraçado e eu tossia demais. Nessa noite consegui dormir, de uma só vez, até meio-dia. Acordei atrasado e saí sem almoçar. Por volta de quatro da tarde estava de volta naquele mesmo ginásio vendo outro jogo. Ainda era vôlei, mas eram outras garotas de shortinho. Fiquei do meu canto fumando, o joelho doendo, parti para um bar. Arrastei minha partida até tarde, quando entraram os universitários comemorando. As garotas estavam ali, mas tinham trocado de roupa. Não era a mesma coisa, não tinha o mesmo apelo. Uma delas me olhou, simpática, perguntou se eu era de alguma faculdade. Fiquei em silêncio, até responder que não. Fui embora dali dirigindo sozinho, entrando na noite com os faróis sendo a única coisa à minha frente. Nada de futuro, apenas dois fachos de luz cortando a estrada sombria, eram mais seiscentos quilômetros até minha cidade.

Por João Scaldini