Do forte sol do deserto
Escorreu de um corpo cansado
Sagrado
O líquido vermelho
Que ao sol secou
Evaporou apenas
Morreu
E em seu santo nome
Hoje
Justificam minha morte
E o nascimento daquele que nem existe.

Chorava em seu banheiro, sozinha. Observou a cena, mas não queria realmente ver. O que fizera? Buscou ajuda, por tempo demais – e era preciso decidir logo, até se ver com uma única opção, abortar. Não tinha outra escolha. Não teria apoio do pai da criança, não tinha apoio de seu próprio pai. Pensou em contar pra mãe, pensou muito em contar para mãe. Puxou o assunto significantes vezes, mas nada saia de sua boca. Já sabia o que diria. Não se pode matar uma vida de deus, os planos dele eram sempre os certos, perfeitos, inquestionáveis, teria a criança. Além do mais, o que diria pro padre? Pras amigas de missa? Pra madrinha? E todas as perguntas das tias? Teria a criança e arrumaria um marido, não pode deixar o povo falando por aí, até porque já tinha mais de 20 anos, já devia tá casada mesmo, pensando em filho sim. Não, não teria, não agora. Mal se sustentava, não tinha como. Não. Não abriria mão de seus estudos para cuidar de outra vida, não abriria mão de sua própria vida. Sentiu culpa. Vergonha. Nojo. Mas tomou sua decisão. Usou uma agulha de tricô, escolheu uma posição. Iniciou seu nascimento.

Em meu corpo gélido
Pedindo ao seu pai que tivesse piedade
Você continuou
E seu líquido sagrado
Escorreu teu corpo à fora
Meu corpo à dentro
E seu gozo quente
Em mim
Penetrou.

Sua visão ficou cada vez mais embaçada. Gritaria por ajuda, mas ninguém a ouviria de seu minúsculo apartamento ainda sem todos os móveis necessários. Morava sozinha há seis meses, mal comprara toalhas novas e já as manchava de vermelho. Olhou para o que saia de seu corpo. Pensou como o sangue só é vitorioso quando resultado de violência. O sangue da queda, o sangue da dor, o sangue do estupro, da pancada amorosa, do ciúme violento, da legitimação da posse, da confirmação do que quer que seja. Nunca o que saía naturalmente de sua vagina. Para esse resta apenas asco e vergonha. Tomou chá por algumas semanas, mas não obteve resultados. Lembrou de uma professora de biologia que comentou sobre uma paciente, no postinho, que se machucou tentando abortar com a ajuda de uma agulha. Optou por essa chance. Faria o mesmo, mas seria bem sucedida. Não iria para o hospital chorar pitangas de um projeto falho, não teria essa criança, já tinha se decidido. Que levassem duas vidas então, não aceitaria que fosse diferente. Sentia frio e medo. Tentou se levantar algumas vezes, apoiou-se na porta, buscou a maçaneta, mas nada. Não tinha forças. Seu corpo esfriava, sua cor mudava, sua respiração já nem mais seria percebida se ali alguém estivesse.

Da maçã deu-se o pecado
E de seu chá com canela minha salvação
Minha perdição
Tomei o veneno
O líquido sagrado
De minhas pernas escorreu a vida já morta
A vida que não nasceu
A vida que me tirei de mim
Morreu
Nasci
(silêncio).

19:07 foi a hora de sua morte. Seu corpo estirado, encharcado de sangue, não seria descoberto tão cedo. Era uma sexta-feira, não seria sentida sua falta na aula, não seria exigida sua presença em bares. A mãe, depois de dois dias de silêncio, ficaria extremamente preocupada. Ligaria para um amigo. Ouviria, por fim, depois de infinitos minutos (horas) de espera, a notícia que a faria gritar de dor, a confirmação do que seu peito angustiado já sabia. Choraria. Pediria ao céu uma explicação. Questionaria: onde foi que eu errei, meu Deus? Por quê? Por que ela não me contou? Ao chegar ao apartamento, abraçaria o corpo fétido de sua filha, o corpo morto, e sua culpa seria maior que seu nojo. Choraria sua morte. Choraria sua morte por muitos dias. Continuaria buscando por alguma resposta, por uma mensagem, um sinal divino, clamando por aquele cujas mãos pesadas de culpa, possuía também os olhos repletos de arrependimento e dor.

Por Marcela Gonçalves