As novas músicas do artista, lançadas nesses últimos dias, usam da mesma temática e estilo do hit Te Amo Desgraça para reproduzir um dos conceitos mais efetivos no marketing e na vida: a lei de Pareto. 80% dos seus resultados virão de 20% dos esforços.

Te Amo Desgraça, falando de sexo e relacionamentos

A música foi um hit. O sample é nacional, a letra é visual e fácil de acompanhar, o refrão é chiclete e cheio de momentos que pode cantar enquanto ouve e… bem, a música tem seu clima bem específico.

Falando sobre universalidades, sexo e relacionamentos são temas comuns à maioria da população. Se não são a todos, deveriam, mas isso é ponto para outro artigo. O fato é que com a maior erudição do público do rap e da população em geral, temas como o sexo, falado de maneira explícita, passaram a ser tratados com maior naturalidade nas músicas.

Não que não fossem antes, basta lembrar de Amor e Sexo da Rita Lee e lembrar que ela já fazia comparações muito antes de Te Amo Desgraça estourar, mas quando figuras como Rita Lee faziam isso, eram consideradas “fora do caminho”, e havia um conservadorismo tratando a música e o tema como tabu. A cantora para essas pessoas era uma libertina, uma sem vergonha, doida varrida.

O timing do Baco, para Te Amo Desgraça, foi assertivo. Nunca antes o funk e o rap foram tão ouvidos no Brasil, e em ambos os gêneros o tema das relações sexuais sempre foram amplamente utilizados. No funk, então, pode-se considerar carro-chefe, ao menos o funk universitário (mas sobre funk eu tenho um outro artigo sobre isso).

Diferença de desempenho entre músicas do álbum Esú

Okay, aqui a gente vai fazer uma análise bem de números. Porque todo artista é uma empresa e uma marca, e sua obra é um produto. O desempenho de cada de produto/música, então, pode ser avaliado pelo engajamento do público.

Mais para o final dessa parte a gente comenta as questões de lucro baseado no algoritmo do Google e do Youtube (considerando um cenário ideal, já que para saber as informações com precisão precisaríamos de acesso à conta do Baco).

Te Amo Desgraça tem 13 milhões de views no Youtube. O resto do álbum, somado, tem aproximadamente 9.541.000 (nessa data de escrita do final de agosto de 2018).

São 10 faixas. Esú, a segunda faixa mais ouvida, tem 4 milhões de views na plataforma de vídeos do Google. É a Lei de Pareto aplicada claramente. Metade dos views das outras nove músicas do álbum estão em Esú, faixa homônima ao título do projeto.

Ou seja, as duas músicas mais ouvidas são aproximadamente 75% da experiência do público com o álbum. E isso não quer dizer que as outras músicas sejam ruins, pelo contrário. Atingir resultados bons assim exige um material de qualidade, mas a lei de Pareto prevê que essa discrepância surgirá.

Em termos de arrecadação, se considerarmos que o RPM médio do Youtube se mantém para músicas (1 dólar a cada mil views), Te Amo Desgraça arrecada sozinha 13 mil dólares, o equivalente a 52 mil reais. O resto do álbum faz quase 10 mil dólares/40 mil reais.

Não é um resultado ruim, nem de longe. Mas vendo em termos de retorno financeiro, fica ainda mais claro o poder da lei de Pareto e mostra como os artistas podem se aproximar de uma lucratividade mais alta entendendo as demandas e necessidades do público.

Como o Baco usou a lei de Pareto nas novas músicas

Em um dia, Banho de Sol, o novo single, bateu 290mil views. Isso dá 290 dólares, o equivalente a 1160 reais (ainda mantendo o pagamento médio do Youtube) em um dia.

A segunda música, Tardes que Nunca Acabam, já tem 55 mil views em 3 horas. 220 reais em três horas. Não é uma média ruim de arrecadação.

Falando em termos de estratégia, exclusivamente, e desconsiderando a questão da qualidade e méritos do material (que eu achei legal, competente), é tudo um direcionamento de mercado.

Há a demanda, os resultados são claros e mostram isso (um dia eu ainda falo do Kondzilla nesse canal) e o rapper explora essa demanda com um material autorreferencial. A frase em Banho de Sol “Nós quebramos tantas taças, nem tem mais onde pôr vinho” é uma marcação direta do refrão de Te Amo Desgraça: “Bebendo vinho, quebrando as taças…

Ou seja, mesmo que tenha suas próprias opiniões sobre o Baco Exú do Blues, fazer arte bem também é pagar as contas – e saber onde está o dinheiro é fundamental. A minha previsão é que, mesmo não passando Te Amo Desgraça, as novas músicas terão um resultado bom (acima de um milhão)