Eu tirei um dia para ser chuva, e como chuva fluí ao mar.

Tarde da noite, insone como as boas criativas noites começam, desliguei a televisão que não fazia diferença ou barulho que agradasse e abri a janela engordurada na cozinha de meu apartamento no terceiro andar do prédio onde morava e que se localizava no meio da cidade. Muitas coisas me seguravam em terra, como as correntes de Prometeus mantinham-no em seu castigo; eu respirei fundo e para cada novo ar em meus pulmões uma dessas ligas imaginárias de metal rompia-se silenciosamente pelas forças dentro de mim. Eu precisei de uma hora, mas todas caíram. Com a janela aberta eu virei chuva depois disso.

Não há melhor sensação do que ser nada em meio ao todo, ser gota de água flutuando no céu, esperando a hora certa de ir à terra. Não saber, e estar em meio àqueles que sabem ou conseguem suprir esse vazio movimentando-se incessantes ao meu redor, era assim que eu me sentia todos os dias no metrô, indo para casa depois de um longo dia no trabalho. Estar confuso, mas estar perdido; era aquela uma boa sensação, capaz de espremer alguns poucos segundos de felicidade no peito arfante pelo cansaço. Ser gota de chuva e estar perto do espaço, vagar pelo ar sem destino ou direção acertada; havia uma diferença essencial no que conferia os sentidos expressos e o sorriso no rosto – ser água é ser simples, e toda a felicidade simples é plena. Eu planei, agreguei, me misturei, ao longe, no horizonte, via os relâmpagos cortarem o céu de tempestade.

Com muita pressão, muita agitação, tudo cai hora ou outra. Não podemos nos segurar no que não está lá, e no ar ou na terra não havia o que me segurar. Eu caí como chuva, em muitas gotas sem forma definida descendo pela gravidade da terra até tocar a superfície mais ou menos firme que era a terra e sua cobertura diversificada. Tocando folhas, tocando terra, tocando pedra, tocando água, boa parte de mim foi para os rios afluentes de uma grande nação ribeirinha, ou talvez fosse o Amazonas. A confusão que antes havia tomou jeito, estabilizou-se por lá, eu passei a entender quais eram os meus problemas. O desafio ainda constante e corrente nas curvas e meandros de meus afluentes era como resolvê-los, como chegar lá. Um bom rio é calmo e plano ou cheio de quedas e rápido, existem dois tipos de pessoas no mundo. Eu era dos lentos e ruidosos produtores fluviais de vida, minhas margens nunca se encontrariam, e por vezes estavam distantes demais para verem-se. Fluí e deixei fluir, a lenta calma na preparação e compreensão de meus problemas chegou ao fim, eu sabia o que fazer.

Na mesma noite que fui homem, fui chuva e fui rio, eu virei mar, oceano a encontrar um destino. As doces águas de mil inicios diferentes tiveram o mesmo fim, eu me encontrei todo nas profundezas do Atlântico. O sal queimava, as correntes arrastavam-me de um lado para o outro, mas ao contrário das outras vezes, em que eram apenas barulho e movimento, eu as escolhia à minha vontade. Fui o mar da profundidade, escuro, negro e frio sem ter quem me estudasse, fui mar da superfície, cristalino, chamativo, cheio de destaques. Fui água a evaporar, em nuvens outra vez me encontrei, os ventos me levaram para sobre a terra, eu voltei, eu chorei.

A água em meu rosto vinha de fora, e me acordou daquilo que foi um sonho, de uma noite que fui chuva, rio e mar, de uma noite que não fui homem e descansei a cabeça, como Prometeus gostaria de descansar o corpo.

Por João Scaldini