Liberdade era a palavra preferia proferida pelos revolucionários naquele longínquo ano – dois anos antes. As bandeiras agitavam-se com orgulho e na face de cada concidadão seguidor daquele grande líder estampava-se a pátria com amor. Anos depois e estavam todos sentados amuados nas calçadas ensanguentadas se perguntando o que dera errado. Esqueciam-se, nas lembranças embotadas pelos sonhos de glória, que ao seguir um líder, qualquer que seja, perde-se a liberdade por uma soma gratuita de valores truncados colados em uma boca mais falante – alta, popular. O que importava naquele momento?

Os tolos, cada um dos malditos tolos daquela pequena vila chamada país, matavam-se dia seguido de noite, noite seguida de mais mortes, mais choros, mais guerra. Os inimigos eram os outros porque não poderiam ser eles mesmos, espelhavam-se então nas faces antes amigas, viam os erros e atacavam sem pudor o adversário formado por ego. Rosnados substituíam palavras, as instituições substituíam os indivíduos, a crença substituía a racionalidade, e em cada uma dessas vitórias do glorioso líder eleito pelos revolucionários da liberdade perdia-se mais um pouco aquilo que tanto lutaram para conseguir – e não obtiveram de forma alguma. Exceto pela morte, onde tudo se liberta de ser e volta a constituir átomos exclusivos e vagantes pelo universo.

Morreram mais por amar aos livros e os ideais que desejavam manter do que morreriam por anos nas mãos dos criminosos e das famigeradas guerras, pois um governo se recusa a admitir que entrara em guerra contra o seu povo – e todos são levados a acreditar que a crueldade na mão do déspota curiosamente eleito será passageira. Mães enterram filhos, filhos choram pelos pais, as crianças crescem assustadas, pois tudo o que viram foi o horror do medo e da insegurança de não saberem quem são verdadeiramente, quem deveriam ser para a vila, para o país. Toda e qualquer forma de dominação é utilizada para assegurar aos revolucionários da segunda revolução contra a revolução inicial que se pense em agir novamente, que se pense em liberdade. A palavra se perde, anos e anos são perdidos pelo medo, mas a vida é um barril de pólvora sempre a se encher cada vez mais depois das explosões, e o pavio é sempre mais curto onde a explosão foi mais intensa.

“Não se preocupe, parceiro, a liberdade vai cantar sua linda melodia para nós outro dia, enquanto isso nós permaneceremos escovando as calçadas sujas de sangue para podermos – novamente – sujá-la”. Depois de cada noite vem um dia diferente do antigo, o mesmo habitual esperar que se realize a mesma merda dum sol nascente, mas como todos os bons idealistas eles foram ver a bola-de-fogo-que-não-queima-de-verdade surgir da terra, cuspida pelas entranhas do mundo onde tantos jazem já pelo imutável tempo e natureza nossa. Humano, demasiado humano, é a busca pela liberdade, e também o medo, a fúria, o tão sem-sentido amor.

Esperai e deixai esperar. Somos os filhos dos revolucionários, há de se escolher o lado a lutar – mais uma vez – como fantoches em mãos malignas. A roda da vida reinicia cíclica e buscamos em nossos armários as antigas armas dos conflitos.

 

Por João Scaldini