Jogado sobre uma vala molhada, sentia-se impossibilitado de movimentos. Os olhos direcionados à lua – única fonte luminosa dali -, tão centrados e estáticos quanto de um louco, em um estado digno de pena. Ele pensava sobre esse sentimento, enquanto se mantinha imóvel. Refletia que as pessoas são convencionadas a achar que sentir pena é ruim, é a simbolização da fragilidade alheia no mais alto grau de vulnerabilidade, que desperta nosso íntimo a se solidarizar com as piores mazelas ou os mais tristes acontecimentos na vida do outro. Porém, pena também evidencia a nobre capacidade, intrínseca ao ser humano, de ajudar, portanto, clamava através de gritos silenciosos pela menor dose de pena possível, pois já seria um alento. Esses incomuns pensamentos fluíam enquanto permanecia com as costas úmidas e frias sobre a lama. Tinha o mais forte e profundo desejo de ser soterrado, dando fim àquela angústia dolorosa que era sua existência.

Elias, no mundo real, não se encontrava naquela situação, mas sentia-se daquele modo. Projetava aquele episódio com mais nitidez do que o próprio mundo real. Seu imaginário ia a lugares exóticos, sempre melancólicos de alguma forma. Na realidade, estava sob uma forte chuva, protegido pelo ponto de ônibus, exceto pelas contínuas gotas que caíam sobre suas costas, deixando-a úmida e fria. Todos os dias era forçado, pela limitação econômica que estava condicionado, a esperar por um tempo indeterminado sua condução lotada, abafada e, consequentemente, desconfortável.

Balançava o pescoço de um lado para o outro em busca do alívio incômodo, repetido diariamente, que era a materialização do ônibus em seu campo de visão. Esse indiferente esforço de Elias se assemelhava à sua indiferente e incessante procura de uma fonte luminosa, capaz de acender esperança para uma trilha minimamente feliz ao seu espírito, até então deprimido e solitário.

Após o caminho desagradável até sua casa, jogou sua mochila ao chão com toda força que o corpo franzino permitia. Enraiveceu sem motivos, ou pelo excesso deles. Desejou que seus braços se tornassem uma força interior e corajosa, que a mochila se tornasse seu inútil corpo e que o chão tratasse ele com tanta violência quanto a impiedade dada à mochila. Imaginou com certa alegria aquela cena, sua existência chegaria ao fim, junto ao maior sofrimento possível, a vida.

Enxergava o suicídio como único remédio da infelicidade. Planejava inúmeros formas de descanso, mas não possuía valentia suficiente para fazê-los. Sentia-se mais imprestável, por nem isso conseguir.

Depois de tanto projetar em vão, compreendeu sua inutilidade para a prática dos planos. Mas, passados alguns minutos, a aparente incapacidade tornou-se um acúmulo de pequenas porções de coragem, quase completas naquele momento, permitindo a ação de Elias. Saiu afoito de casa, para, enfim, consolidar o mais simples e acessível plano daquela gama de possibilidades para chegar à morte.

Vinte minutos depois, estava à beira da mais alta ponte que conhecia. Suado, determinado, rindo inexplicavelmente para quem está prestes a colocar um ponto final na vida, apoiou-se rapidamente na mureta, antes que sua medíocre consciência o tirasse dali. Já de pé, olhou para trás, viu uma desconhecida mulher, corpulenta, de baixa estatura e com vestes brancas, com expressão de dúvida, ou talvez um pequeno desespero, corria em sua direção berrando a palavra “NÃO”, estranhamente, aquilo motivou-o a saltar. Os instantes que se seguiram foram os mais vagarosos e deleitosos de sua vida, já que eram os últimos. Aquela mulher foi a porção determinante de motivação que Elias necessitava e, durante a queda, agradecia a ela pela oportunidade de tornar toda sua cinza tristeza em uma escuridão plena e inconsciente.

A moça, que sibilou com todas suas forças o “não”, foi acometida por uma crise de riso instantânea ao ouvir o impacto do corpo na água. Após o corpo de Elias sumir nas profundezas do rio abaixo, ela ligou para a emergência. Aproximaram-se algumas pessoas, a estranha mulher chamou a atenção para si, dessa vez com um semblante extremamente triste e, como uma boa atriz, falou num tom bem alto: “Essas assassinas águas escuras que correm serenamente abaixo não possuem o mais ínfimo remorso de seu ato”. Sensibilizou toda aquela plateia e não conseguiu segurar um quase imperceptível sorriso irônico no canto da boca. Concluiu indagando a seu pequeno público: “Como um jovem foi provido de tanta melancolia a ponto de decretar seu falecimento?” Os ouvintes foram incapazes de sobrepor o raciocínio lógico de suicídio à pena que sentiam por aquele discurso emocionante da mulher, pelo menos por alguns instantes.

Quando o corpo do rapaz emergiu, o socorro sequer tinha chegado, e os curiosos se acumulavam às dezenas nas redondezas do rio. A mulher desapareceu após a chegada das autoridades. As pessoas não perceberam, chamavam atenção para a improvável perfeição que o corpo do rapaz aparentava momentos depois de uma enorme queda. A morte tinha poupado Elias de um fim agonizante.

O resgate chegou e levou o corpo prontamente. Chegando no IML, a constatação da morte não era necessária. Elias morava sozinho num apartamento alugado. Sua família se limitava a tios que moravam em outro estado e parentes que sabiam da existência dele, mas nunca tiveram contato. Os tios foram informados, mas fingiram que não foram – desprezavam aquele rapaz, que desde menino não se comportava. No orfanato, só dava problemas e, quando adulto, nem os procurava.

Havia uma fila de cadáveres mais importantes que Elias. Ali, ele era um indigente e nem foi verificado. Um dia depois, foi enterrado com o caixão mais barato, sob uma cova rasa – em comparação com as demais -, simples e sem ornamentação, como qualquer outro desconhecido, descartado pela pressa dos coveiros.

Ainda em vida, quando arquitetava sua morte, sabia que esse seria seu futuro e não se incomodava. Era cético com uma pontinha de misticismo. Imaginava que, se realmente existissem espíritos, o seu estaria apto a se desprender mais facilmente das amarras infernais, que se encontrariam mais abaixo. Pessoas de históricos mais desgraçados caminhariam sobre o hipotético chão quente da estrada horripilante ao inferno, não um rapaz que nunca fez mal para ninguém, além de si mesmo.

Será que Elias alcançou sua inconsciência eterna, tão desejada?

A morte é um mistério que ele não desvendou. Na mesma noite de seu enterro, sob um luar distante, a cova de Elias foi coberta por pedras retangulares. Eram similares a tijolos, mas demasiadamente pesadas, dispostas simetricamente em sete linhas e cinco colunas, por alguém de enorme valentia, que adentrou o cemitério numa noite de chuva para ornamentar uma cova – ou seja lá o que era aquilo sobre a terra.

Elias acordou assustado com o preto que enxergava – não tinha certeza se realmente enxergava -, e um chiado irreconhecível predominava. Tamborilou os dedos da mão direita sobre a madeira, com exceção do polegar, e pôde ouvir o som semelhante ao trotar dos cavalos. Se perguntou se estava vivo ou se era este um dos terríveis estágios de seu espírito condenado através da morte.

Esperou consciente por dez minutos. Teve a sensação que havia passado uma hora. Nesta altura já estava inquieto. Dois minutos depois, começou a se remexer descontroladamente e gritar, em fúria, por aquele tedioso inferno. Esforçava-se loucamente em todas direções, até que ouviu um barulho revelador, pensando que seja lá o que lhe envolvia acima, abriu uma fresta. Pensou que, provavelmente, o capeta estava cansado dessa brincadeirinha e começava a lhe libertar para outra provação angustiante.

Errou no achismo. Sentiu, sobre o pé esquerdo, algo como areia molhada ou lama, rememorando impressão semelhante à ilusão no ponto de ônibus. Nesse momento, encontrava-se descontrolado, gritando até arranhar as cordas vocais e, à medida em que seus movimentos selvagens acertavam o caixão, maior era quantidade daquela substância indecifrável entrando na caixa, agora, por todos os cantos. Colocou as duas palmas da mão para cima, enquanto seus cotovelos permaneciam em contato com a madeira – formando um ângulo de noventa graus -, devido ao pequeno espaço. Empurrava com todas suas forças, mas a tampa permanecia imóvel. O peso, antes enorme, tornou-se impossível de ser movimentado. E seu revoltado corpo quente ficava cada vez mais gélido.

Aquela estranha mulher que se materializou para Elias na ponte, dispunha cuidadosamente as pedras minutos antes. A imobilidade dele foi consolidada no instante em que ela cobriu as pedras com uma fina placa de chumbo, formando um leito desconfortável, molhado e frio, onde deitou dando gargalhadas ininterruptas com suas vestes brancas sem a mesma pureza do dia anterior – cobertas por lama. A morte repousou na mesma posição paralela a Elias.

Ele, menos de dois metros abaixo, parou e refletiu. Enfim percebeu o que se passava ali. Foi enterrado vivo. Aquela substância indecifrável era, obviamente, terra molhada. Dentre todas precauções de seus planos suicidas, jamais previu tal cenário. Elias poderia sentir sede e fome, mas, enquanto sua temperatura diminuía, sua mente revirava, buscando explicações para todo aquele peso sobre o caixão.  A esta altura, já sabia que fora enterrado numa cova rasa – o coração palpitava alto e rapidamente, gerando sensações nauseantes e de pânico completo. O clima claustrofóbico alterava, temporariamente, os processos fisiológicos; e, motivava a presença exclusiva do mais incontrolável, intenso e aflitivo, medo.

Elias passou tanto tempo objetivando seu falecimento, que quando se aproximava, pensou racionalmente, constatando que não era a única opção. Dentro do caixão, seu maior objetivo era se livrar do ímã que atraía a morte. Mas procurou e colocou tal ímã sobre toda sua carga vital. Livrar-se dele era impossível, já que o ímã não existia mais, a morte estava a menos de dois metros dali, sobre ele.

Aos poucos foi morrendo.

Antes, a impressão deixada foi de que a morte havia chegado branda à Elias. Porém, quando chegou mesmo, foi cruel, apoiando todo seu peso – literal e metafórico – usando algumas das suas piores manobras de tortura. Ele sentiu fome, sede, frio, ansiedade, pânico e medo. Sensações nunca ambicionadas. Cada um desses fatores pode ter sido a causa do óbito, ou todos eles juntos. Como se cada um fosse uma facada com diferentes mecanismos de corte e dores distintas sobre o corpo fraco do rapaz.

Ele sempre tratou a morte como uma amiga que nunca possuiu. Momentos antes de pular da ponte, ele a viu, sem se dar conta de quem era. Não a conhecia, mas tratava com apreço, desejando que ela o visitasse o quanto antes para seguirem o caminho misterioso e enigmático que o destino promete a todos, e ele adiantava.

Quando ela visitou, contudo, mostrou sua face infiel naquela amizade unilateral. A morte deitou sobre sua cova, munida de suas armas mais excruciantes, levando aquele espírito a locais onde aquela angústia letal na Terra, será potencializada por muitos anos de dolorosos tormentos na vivência de mundos umbralinos. Fazendo sofrer quem era “cego” por uma cinza tristeza, transmutando a carne que envolvia essa cegueira desgraçada nas cinzas da decomposição.

 

Por Felipe Pacheco