Eu sempre gostei das ruas depois do anoitecer. As pessoas são outras nesse horário, acho que o dia expõe demais as personalidades, por isso elas se escondem. Durante a noite não há sol, a única iluminação natural existente é a da luz do luar.

Mesmo que as lamparinas clareiem o caminhar noturno, elas não têm força para revelar os segredos da noite. A cidade em que vivo muda após o anoitecer, assim como seus habitantes. Os homens honestos do dia transformam-se nos apostadores beberrões das tavernas, as mulheres possuem duas opções: podem esperar os maridos retornarem da bebedeira ou ir pra taverna e usar seus bens naturais pra ganhar a vida. Apenas as crianças e os velhos são imunes à mudança do dia para noite. Os jovens são ingênuos demais para saberem da vida e os velhos já não possuem mais tanta energia para mudarem.

Eu ando pelas vielas até a taverna todos os dias, com meu alaúde e minha esperança de conseguir pelo menos uma moeda de ouro. Conheço o taverneiro desde criança, acho que ele me contratou mais por afeto do que pelo meu talento. Não me importo muito com isso, afinal, trabalho é trabalho e eu só quero me manter dignamente nesse mundo.

Em algum momento, sempre acontece uma briga e é quando eu toco meu instrumento mais acelerado, e as moedas caem do bolso dos brigões com mais facilidade. Tenho que aproveitar cada oportunidade que a vida oferece. Tenho um acordo com as cortesãs do bordel mais próximo, sempre que elas chegam na taverna para capturar suas vítimas, eu toco canções mais quentes. Elas me dão uma porcentagem do dinheiro que recebem com os bêbados apaixonados.

Talvez eu não seja o homem mais honesto, mas também não sou o mais sujo. Creio que a vida seja assim: a gente faz o que tem que fazer para sobreviver, esse é o objetivo de todos, sobreviver. Os heróis estão lá fora, sacrificando suas vidas em nomes de pessoas que eles nem conhecem, pessoas que talvez nem mereçam esse sacrifício, mas dizem que isso é nobre e honrado. Eu acho que é besteira, há uma linha tênue entre coragem e estupidez e a maioria dos heróis são mais estúpidos do que corajosos.

Quem eu sou durante o dia? Um rapaz normal, vindo de uma família nem rica e nem pobre. Não tive aptidão para me tornar um herói (talvez porque eu não seja estúpido). Eu só gosto da minha vida do jeito que ela é, continuo sobrevivendo e a não ser que o destino tenha algo inesperado programado para mim, continuarei tocando meu alaúde na taverna, vendo o mundo através dos meus olhos céticos e desacreditados. Quando você vive na taverna e não é um dos bêbados, passa a ver as pessoas e analisá-las como se não fosse um humano também.

Eu não acho que essas pessoas que mudam com a transição do dia para noite estão erradas, só durante a noite que elas tem a oportunidade de agir conforme o instinto manda e nós aceitamos essa mudança, é normal para nós. Só ficamos assustados quando alguns indivíduos perdem essa linha entre dia e noite e cometem suas atrocidades aos olhos do Sol. As atrocidades da noite só são divulgadas de dia, para que as pessoas em geral não fiquem assustadas.

Acho que a maior desgraça da minha vida foi enxergar essa linha imaginária entre o dia e a noite. Deixou de ser algo natural, sinto-me culpado pelas coisas que fiz seguindo meu instinto, não que essas coisas fossem feitos horríveis e desumanas, só sinto como se eu tivesse perdido o controle propositalmente. Sinto a culpa, mas não me arrependo, afinal, meu objetivo sempre foi sobreviver e creio que o seu também seja. Quando tiver uma oportunidade de passar a noite em uma taverna, de preferência sóbrio, faça isso e veja como nós seres humanos escondemos nossos animais internos do sol e soltamos durante o luar.

No final, é isso que somos, animais que têm vergonha de serem animais. Não somos superiores a nenhum outro animal. A diferença entre nós e as demais espécies é que nós temos a capacidade de enxergar e controlar nossos instintos, nossos desejos animalescos. Nós nos regramos para tentar amenizar a culpa e o arrependimento que podemos carregar ao longo da nossa breve e curta existência.

 

Por Igor Tancredo