Outra vez brigara com os pais. O motivo era sempre idiota, quando não era? O resultado de qualquer discussão são caras feias e coração acelerado pela adrenalina e as pontadas de ódio. Qual era o problema dele? Não sabia. A boca respondia mais rápido do que o bom senso, ao menos era destemido, isso não poderiam tirar dele.

Ficou dentro do quarto, no escuro, a tela do celular iluminava o rosto franzido em desgosto. Queria alguém para conversar, queria muitas coisas na verdade, mas como não poderia sair, queria alguém para conversar. Nada, zero mensagens. Os amigos estavam comemorando o ano novo, bebendo, se divertindo, ele estava em um quarto escuro procurando ajuda. Viu um vídeo no Youtube, riu um pouco.

Depois de alguns minutos perdeu o interesse no celular, nenhuma mensagem. Sentia-se preso, em uma gaiola. Poderia sair e interagir com as pessoas, mas estava pouco à vontade com a ideia de entrar no jogo dos pais e simular felicidade, contentamento. Coçou a cabeça, sequer tinha tomado banho naquele dia. Decidiu começar por aí.

Para gastar bastante tempo, entrou debaixo do chuveiro, a água quase fria despertando a letargia nele e deixando um ressentimento amargo arder dentro de si. Saiu do banho tremendo, não sabia se de ódio ou frio. Pôs uma roupa qualquer, não iria à festa.

Ficou mais alguns minutos no quarto vendo mais vídeos, desinteressado. Ocasionalmente alguém o respondia, não gostou, começou a preferir quando estavam em silêncio. “Vem pra cá”, um ou outro chegou a chamar. Desconversou, usou como desculpa a briga com os pais para ficar em casa.

Estava queimando de ódio, quis chutar alguma coisa, gritar com alguém, fazer algo. Energia acumulava dentro dele, momentum pronto para ser usado. Não tinha alvos, planos, nada. Mal sabia o porquê do ressentimento. Não era a briga com os pais, brigava com eles o tempo todo, brigava com todo mundo o tempo todo. Não era uma pessoa fácil, sabia disso, não se importava também.

Começou a dar alguns passos inquietos pelo quarto, foi ao armário, à estante, à mesa, voltou para a cama, repetiu esse ciclo em diferentes ordens. Ligou a TV, o videogame, abriu um livro. Mal passaram trinta minutos, estava outra vez perturbado. O que faltava?

Abriu o livro outra vez, releu a mesma página três vezes, palavras embaralhadas e frases confusas, tudo parecia fora de contexto. Ele estava fora de contexto. Quis gritar. Quis beber, talvez esquecer tudo como faziam nos filmes. Lembrou que não bebia. Quis começar a beber naquele momento. Foi para a cozinha e procurou alguma coisa, a geladeira estava desprovida de álcool, pegou um yogurte exposto, à vista, voltou para o quarto com o líquido gelado descendo pela garganta.

A bebida acabou, a paciência também, mal deitou na cama. Jogou longe o travesseiro. Acessos de raiva, desde quando ele tinha acessos de raiva? O seu maior inimigo era a autoconsciência, percebeu-se ridículo, infantil, atrasado. Jogou o pote de iogurte no lixo, foi para o lado de fora de casa.

A festa ocorria na parte de cima, ali, no jardim, ninguém poderia vê-lo. Era um espaço pequeno, cinco metros por dez, coberto de grama e algumas flores, árvores crescendo. Havia um pequeno aclive, entre as flores e as árvores, deitou no aclive. Encarou o céu noturno. Morava em um condomínio localizado em um bairro longe do centro, mas ainda perto de tudo para fazer as coisas andando. Dali viam-se algumas boas estrelas. Um ano novo sem lua, sem nuvens, por um momento quis que ventos frios soprassem nuvens de chuva para estragar aquele momento, mas foi pego pelo espanto do céu noturno. As estrelas estavam lindas.

Subitamente, toda aquela agitação dentro de si sumiu, dissipou no ar abafado do céu noturno. Quase simbolicamente, alguns minutos depois soprou uma brisa fria, já não tinha mais aquele calor no peito, aquela inquietação. Voltou a sentir parte do calor noturno, mas estava melhor. As estrelas estavam lindas, distantes, perdidas, um exercício de contemplação objetivo, metódico. Olhou de um lado para o outro. Lembrou da história do filósofo grego que contara todas as estrelas visíveis no céu noturno. Pensou em tentar, viu que seria tolice. Não precisava contar as estrelas para sentir sua imensidão, para sentir-se ínfimo.

Por algum motivo, essa humilde realização deixou-o feliz. O que haveria no espaço? Quais eram os limites do tecido dimensional? Até onde poderia ir em um facho de luz vagando? Como seria ter uma casa em um cometa e visitar a terra a cada par de centena de anos por vez, deixando um rastro no caminho. Quis poetizar, arriscar-se: pessoas eram como cometas de vida curta que vemos uma vez para nunca mais, o rastro que fica é o mais belo. Quase riu, blasé, clichê, vazio. Não falava nada com nada. Continuou olhando para o céu até que sentiu coceira.

Voltou dentro de casa e buscou um velho MP4, uma toalha e mais um iogurte. Não precisaria beber naquela noite. Pôs a música mais calma que encontrou na playlist desatualizada e ficou ouvindo, imaginando histórias com a própria vida que não se realizariam. Seguiu os sentimentos propagados pelas melodias, músicas de amor faziam-no vazio por um amor que nunca sentira, por uma mulher que nunca teve. Onde estaria ela? Com outro homem? Mais feliz? Uma coisa da qual se ressentia profundamente era a inabilidade no canto. Daria um bom tenor, tinha uma voz relativamente grave. Seria o sucesso do coral da igreja, mesmo não sendo de igreja alguma. Trocou de música e ouviu algo mais animado, com mais raiva, pensou em mudar de faixa, mas deixou, fantasiou coisas mais agressivas. As mãos apertaram involuntariamente a grama ao redor.

A playlist tocou até ele começar a sentir frio. O tempo estava virando aos poucos, a madrugada chegava em passos lentos, trazendo consigo o novo ano. Ouviu as pessoas rindo, pausou o MP4 para saber o que ouviam. Não gostou, continuou ouvindo. Havia o som de risos, conversas, uma voz ou outra despontando em meio à multidão.

Foi quando começou a contagem regressiva.

Dez. Era tudo bobeira.

Nove. Não fazia sentido.

Oito. Quantos segundos de felicidade…

Sete. … por um momento tão besta?

Seis. As pessoas se iludiam.

Cinco. Percebeu-se verdadeiramente triste.

Quatro. Estava solitário.

Três. Apertou o play do aparelho de música.

Dois. Hoje eu acordei

Um. Com uma vontade danada

Os fogos estouraram. Viu-os de onde estava. Os amigos dos pais trouxeram algumas caixas, soltavam indiscriminadamente as misturas de pólvora e outros elementos químicos para verem desenhados no céu, por alguns segundos, imensas esferas coloridas. Os fogos eclipsavam as estrelas conforme subiam. Prestou atenção neles. Eram bonitos. Permitiu-se um sorriso, podia ser uma pessoa difícil, não precisava ser insuportável.

Passaram os segundos iniciais da virada do ano e a agitação morreu. As pessoas continuaram as mesmas. Ele ouviu mais música, as estrelas ainda estavam ali e eram lindas. Cinco faixas, seis. O aparelho apagou na sétima, sem bateria. Sentia-se um pouco decepcionado, mas estava calmo. Levantou, pegou a toalha, foi embora. Entrou no quarto, arrumou a cama. Dormiu quieto.

 

Por João Scaldini