Como falar sobre um álbum que já fala por si? Como começar este artigo? RT Mallone lançou seu primeiro álbum (sem contar a mixtape Vendedor de Sonhos sobre a qual já falei aqui) e eu posso passar os próximos 10 anos falando disso. 

Vamos do começo então.

roho tahir
Foto por JV Medeiros

Você já deve conhecer o RT, se não conhece, deveria. Ele é um desses poucos talentos que se mostram tão honestos e verdadeiros que eu só consigo pensar na descrição do Hemingway sobre o Fitzgerald em Paris é uma Festa:

“Seu talento era tão espontâneo como o desenho que o pó faz nas asas de uma borboleta (…)”

Poético, mas ainda não resume completamente a sensação de ver o MC nos palcos, ou ouvir suas músicas. A delicadeza da analogia não traduz a beleza da realidade, toda analogia falha pelo princípio de que não é exatamente sobre o que falamos. 

Quando falamos do RT, só podemos falar dele. E o melhor resumo é a própria obra.

A expectativa para o novo álbum era alta. Foram dois clipes antes do lançamento, Okay e Sem Chance, com participação do criador da Artefato (selo do qual faz parte), Negus

A recepção foi positiva e a promessa do álbum crescia. Mas quem viu e ouviu já sabe disso. O álbum foi lançado dia 9/8, as pessoas estão ouvindo. As pessoas estão falando. Falando bastante. E vem a pergunta: 

Sobre o que fala Roho Tahir?

roho tahir
Foto por JV Medeiros

O talento em contar histórias

Enquanto Vendedor de Sonhos coloca o eu-lírico do RT diante das atribulações da vida como um jovem negro lutando pelo seu sonho sem perspectivas de sucesso, tendo apenas suas expectativas quanto a arte e seu talento motivando-o a seguir em frente, Roho Tahir é o segundo capítulo da história, que mostra um RT (ainda) mais maduro musicalmente, mais próximo do seu objetivo.

roho tahir
Foto por JV Medeiros

É impossível falar de Roho Tahir sem falar de Vendedor de Sonhos, porque a narrativa musical que se estica ao longo de todos os trabalhos do RT são ao mesmo tempo extremamente pessoais e ainda assim generalistas. 

Em um país onde se torna cada vez mais difícil ser um jovem negro de periferia, a perspectiva sempre precisa e observacional do rapper é capaz de oferecer um panorama dos riscos diários enfrentados por ele e por milhões de outros jovens. 

Vendedor de Sonhos mostra essa realidade de um beco sem saída onde as pessoas podem apenas olhar para cima e esperar por um milagre para conseguirem superar todas as atribulações. A frase O Menino do Morro Virou Deus se traduz, então, no fato de que qualquer sucesso dentro desse sistema é verdadeiramente milagroso, divino.

A esperança de alcançar esse patamar divino e limitado – ainda que paradoxal, pois o dinheiro não compra uma saída desse sistema social amparado pelo estado – volta ainda em Roho Tahir e pode ser sintetizada em uma das frases:

“Estamos fazendo grana pra mostrar pro bairro?
Estranho, achei que era fazer grana e fugir do bairro”

O grande salto em Roho Tahir é justamente a capacidade do rapper de conseguir a oportunidade de atingir um público maior, ver a validação de seus sonhos, e estar mais próximo de concretizar seus objetivos como artista: dar voz a essa parcela da população que se identifica com ele e viver de seu trabalho artístico regularmente.

O novo disco traz a narrativa de um jovem em ascensão, enfrentando os mesmos problemas de antes, mas com uma capacidade de argumentar e em um estado de popularidade que alguns anos antes era apenas especulativo. 

RT Mallone
Foto por JV Medeiros

A narrativa de Roho Tahir

O álbum começa com a música Sem Chance, que é uma retomada aos temas do Vendedor de Sonhos, dessa vez assumindo uma postura mais ativa na história.

Se antes RT via os acontecimentos e se sentia relativamente incapaz de ir contra a maré do que esperavam para ele, agora o artista vê como mesmo com novas ferramentas ainda existem barreiras que não pode superar por conta própria. Ainda assim, existe força de vontade para seguir lutando.

Nisso, o álbum segue para a música Sangue de Rei, um hino em nome de tudo aquilo que RT é e representa. Se antes os problemas pessoais, dilemas e questões financeiras serviam como argumento para desistir, hoje são justamente essas questões que alimentam o desejo de melhoria. 

O orgulho nasce de entender que os motivos pelos quais a mídia e a sociedade em geral culpabilizam e demonizam as populações negras e de periferia vem do temor e, até certo ponto, inveja de algumas de suas características. Com isso, nascem tentativas de recriar ou se apropriar de meios culturais nascidos daí.

Não há porque temer ser você, e é isso que te leva longe a longo prazo.

A faixa seguinte é Noizke. Longe de ser apenas uma busca pelo consumo e o novo poder de compra, mostra também aquilo que se deseja e dificilmente se consegue.

Essa união entre desejos de consumo e consciência de que o dinheiro não exime dos riscos de ser negro traz a conclusão de que não vale a pena se posicionar por quem se aproveita das discrepâncias sociais.

“Flow Kaepernick
Como ser patriota num país onde eles adora dar tiro no escuro?
Por isso não me levanto quando seu hino toca
DeLorean leva meu povo de volta pro futuro”

As três primeiras faixas apresentam um posicionamento mais agressivo, com instrumentais que correspondem a essa visão. Contudo, as coisas mudam da quarta música para frente.

Mostrando versatilidade, a música Contrato, com participação de Isis Orbelli, também da Artefato, traz outra perspectiva sobre a rotina de artista em ascensão que RT pinta ao longo do álbum.

Sem Chance pode ser retratada como o ato de sair de casa sem saber se volta. Sangue de Rei é o orgulho ao se olhar no espelho. Noizke representa o poder de compra aliado à autoestima que isso traz. 

Contrato, contudo, fala sobre como uma vida artística corrida põe relacionamentos em risco. Existe impermanência entre shows e discos e, enquanto o rapper mira seu futuro, torna-se cada vez mais difícil conciliar suas relações entre arte e vida. 

Se em Vendedor de Sonhos amar parecia impossibilitado pela rotina do homem comum, em Roho Tahir a estabilidade conjugal dá lugar à rotina de shows, única amante constante.

Cura, que atua como um interlúdio antes das duas últimas faixas do álbum, é a promessa de que, depois dessa jornada pelo sucesso e o reconhecimento como o artista que é, RT terá o descanso prometido, colherá os resultados do seu esforço, atingindo estabilidade financeira e emocional.

Partindo disso, Okay é o som mais otimista e positivo da obra, aproximando-se das promessas que Cura antevê. Não é só uma música em que RT canta sobre boas coisas que pode ter, mas reconhece que sair vitorioso nesse jogo é também em nome daqueles mortos antes de verem isso, e todos os outros amigos, familiares e vizinhos de bairro.

“JF é Chicago, baby. Todo dia um finado
E ainda assim cantamos sobre como é bom se sentir livre!”

A música se encerra ainda com um resumo de todo esse significado, não apenas da música como do álbum e o atual status do rapper no cenário musical, em um áudio de Fabiano Mallone, irmão e um dos primeiros a estar envolvido com RT na música, logo no início, seis a sete anos atrás.

São dores compartilhadas, vitórias compartilhadas.

Todo o fardo que o rapper ainda carrega se acumula além da promessa de bonança, e muitas vezes se escondem da vista, é a faixa Ponto Cego.

O encerramento de Roho Tahir não poderia ser outro que não um olhar novamente introspectivo sobre como apesar do progresso feito até agora as questões essenciais continuam as mesmas.

“Quanto mais tempo eu vivo mais vejo que a lista cresce, aqui na Leste, e a minha prece
Se confunde pois não sei se peço paz ou dinheiro
Confesso, que do meu ponto cego parece o mesmo
Eu vivo entre dois mundos onde não há meio termo
Enquanto o jogo do Rap padece enfermo”

Para onde ir e direcionar seus esforços se o destino soa absoluto e imutável? É pensando em uma liberdade inatingível que o álbum acaba, e continuamos com a sensação de que a jornada ainda está incompleta.

Nesse ponto, contudo, existe uma diferença crucial entre a mensagem final de Roho Tahir e aquela do Vendedor de Sonhos.

Na mixtape, o sucesso era um milagre, e a dor das vidas cantadas soava mais alta e sufocante do que a esperança. 

Em Roho Tahir, há mais determinação e resistência para seguir em frente. A maior barreira foi superada. Mesmo que a jornada seja longa, há mais esperança agora.

O sucesso para quem se sente nada é o caminho de um homem para se tornar Deus. O sucesso para quem conhece seu caminho é o de um homem para se tornar rei. RT já trilha o seu caminho. Se cada cidade é o seu reino, Juiz de Fora já tem quem use a coroa.